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A estrutura da linguagem

 

Você conhece as árvores sintáticas?

Apesar de muitas pessoas discordarem da teoria da Gramática Gerativa de Noam Chomsky, também conhecida como Gerativismo, ela traz uma certa elegância à gramática moderna. Ele chama de Gramática Universal nossa habilidade nata de adquirir a língua materna, e sua teoria apresenta um “mapa” da nossa língua no formato de uma árvore, como uma representação visual da sintaxe que explica as regras gramaticais que, subconscientemente, já sabemos. Este texto apresenta uma visão geral do que é e porque existe a Gramática Gerativa. É um estudo pura e linguisticamente técnico, diferente da linguística aplicada, que estuda o uso da língua na sociedade.

A teoria apresenta a conexão entre as palavras de uma frase por meio de uma árvore sintática. Para montá-la, usamos sintagmas – constituintes – que são grupos de classes gramaticais que funcionam como uma unidade. Um grupo de constituintes forma uma frase, que forma uma árvore. Os sintagmas que vamos ver aqui são: sentença (S), sintagma nominal (SN), sintagma verbal (SV). Cada um deles tem seu próprio núcleo, e juntos formam uma das regras básicas da Gramática Gerativa. Como o português é uma língua com ordem SVO (sujeito-verbo-objeto), uma sentença S projeta um sintagma nominal SN – o sujeito – seguido de um sintagma verbal SV. Esse sintagma verbal projeta seu núcleo – o verbo – e um outro sintagma nominal SN – o objeto. Veja na Figura 1 como isso é representado:


*D é um determinante, um termo que acompanha o substantivo (artigos, por exemplo).

Por exemplo, quando falamos em voz alta a sentença (S) “O menino bebe leite”, dividimos as palavras em sintagmas nominal e verbal. “O menino” possui o determinante e o substantivo, formando o SN, e “bebe leite” possui o verbo e o objeto, formando o SV. É importante ressaltar que esses sintagmas da Figura 1 estão bem crus e que, obviamente, existem muitos outros, como o sintagma preposicional (SP) e o sintagma adjetival (SA). Ao decorrer do estudo da Gramática Gerativa, entendemos que a língua é muito mais complexa do que esses sintagmas tão básicos. E vale lembrar que nem toda frase segue a ordem SVO em português, e os sintagmas devem ter a capacidade de representar isso. A ideia é que eles representam a língua, e não vice-versa. Em gaélico irlandês, por exemplo, o verbo vem antes do sujeito, ou seja, a ordem fica VSO (verbo-sujeito-objeto). Consequentemente, a estrutura da sentença S será S🡪 SV SN, ao contrário do inglês e do português.

Agora que temos nossos sintagmas, podemos montar nossa árvore sintática. Lembre-se de que os sintagmas são organizados hierarquicamente em torno de seu núcleo. Por exemplo, a parte mais importante de um sintagma nominal é o substantivo, assim como a de um sintagma verbal é o verbo, e assim por diante.

Figura 2

 

Repare como cada sintagma na Figura 2 tem sua função. Se a árvore fosse plana, todos os galhos teriam o mesmo status, o que não mostraria a relação que as palavras em uma frase possuem. É por isso que precisamos de uma estrutura hierárquica para representar nossa língua, portanto, podemos dizer que a Gramática Gerativa é uma afirmação teórica com consequências empíricas, pois sabemos que a língua natural não é plana. O jeito que usamos nossa língua não é plano. Seria impossível representar a relação entre os sintagmas em uma árvore sintática plana. Veja a estrutura na Figura 3 e observe como ela não tem a capacidade de descrever uma língua:

Figura 3

 

Se você tentar reproduzir a frase de acordo com essa estrutura, as palavras vão ficar tão separadas que a frase vai parecer desconectada. Para entender melhor esse conceito, tente falar a frase com pausas entre as palavras. Estranho, não é? Porém, é isso que a estrutura plana da Figura 3 mostra, o que não representa a realidade do nosso sistema linguístico.

 

Mas por que precisamos dessas árvores?

A ciência cognitiva, que inclui a linguística, existe para que possamos estudar e explicar os algoritmos da mente. Portanto, representações como a árvore sintática delimitam as ideias primitivas que tínhamos sobre linguística. Além disso, essa teoria sintática, assim como qualquer estrutura que demonstre as relações dependentes entre sintaxe e semântica, podem ser usadas no estudo de processamento de linguagem natural (PLN). Como vamos ensinar nossa língua a um computador se nós mesmos não a entendemos? As árvores sintáticas também nos ajudam a entender frases ambíguas, pois, como a relação entre as palavras são diferentes dependendo do significado, as estruturas hierárquicas serão diferentes. Logo, podemos ver claramente a distinção entre os significados.

Bom, um único prego pode não ser suficiente para construir uma casa, mas ele ainda é necessário, não é? Podemos dizer o mesmo sobre o estudo das árvores sintáticas. Apesar de a Gramática Gerativa fazer sentido, ela não explica exatamente todas as estruturas possíveis de uma língua, o que é um dos motivos do debate entre os que acreditam e os que não acreditam nela. Porém, é a teoria sintática moderna mais estudada em linguística, pois é muito extensa, muito complexa, e é, com certeza, um grande avanço do nosso estudo e entendimento da língua em geral.

 

Sobre a autora

 Giovanna Burns-Agria é bacharela em Linguística pela Carleton University, no Canadá, onde também estudou ASL (American Sign Language). Formada pelo curso de Formação de Tradutores da Interpret2b, trabalha com QC na área de legendagem de filmes e séries em mais de 65 línguas, em uma empresa de serviços de mídia. Já fez tradução voluntária para as Nações Unidas e, atualmente, também atua como tradutora do português para o inglês. Busca o mestrado em Linguística Cognitiva.

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