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Por que ainda há tantos tradutores que não usam CAT Tools?

Fonte: Mart Production, www.pexels.com

 

A pergunta que se tornou o título deste artigo vem de uma constatação feita em meses recentes. Mas antes de entrar direto no assunto, vamos contextualizar um pouco a situação. No fim de 2020, durante uma conversa com o William Cassemiro, diretor-geral da Translators 101 e ex-presidente da Abrates, eu e a minha sócia Luciana Galeani propusemos uma parceria: estávamos dispostos a oferecer um curso de introdução ao trabalho com as famosas (e, às vezes, temidas) CAT Tools para os assinantes da plataforma. A proposta foi aceita e traçamos alguns planos e cronogramas. E previmos abrir duas ou três turmas no decorrer de 2021.

Mas as coisas aconteceram de um jeito bem diferente do previsto. Depois de 15 meses da estreia do curso na Translators 101, a demanda foi surpreendente: em vez das “duas ou três” turmas previstas inicialmente, já enchemos 14 turmas com tradutores que precisavam aprender a usar essa ferramenta. E, além de convites para oferecer o curso em outras plataformas (como a Escola de Tradutores), os alunos pediram que criássemos um segundo módulo com ainda mais conteúdo. O sucesso foi tão grande que já temos turmas agendadas (e cheias!) para os próximos meses!

Transcriado pelo autor a partir do original de Michael Ashton/Little Archer, https://lightroastcomics.com/

 

Foi pensando em tudo isso que essa reflexão surgiu. Afinal de contas, por que ainda há tantos tradutores que não usam CAT Tools?

Questões a considerar:

As agências de tradução dificilmente contratam tradutores que não usam essas ferramentas.

 

Trabalhar com uma CAT traz ganhos em agilidade e produtividade para os tradutores.

 

Conversando com os colegas e também partindo da minha própria experiência (ou da falta dela, quando ainda estava batalhando para entender o funcionamento das CAT tools), dá para listar algumas das principais razões:

• Diferenças no fluxo de trabalho: normalmente, quem não traduz em uma CAT tool está acostumado a trabalhar no Word ou outros processadores de texto. E as diferenças no fluxo de trabalho são enormes: no Word, basta abrir o programa e ele já exibe uma folha em branco com um cursor piscando, pronta para receber o texto. Numa CAT é preciso criar um projeto, criar (ou selecionar) memórias de tradução, glossários, definir os idiomas do projeto… ou seja, há mais passos a serem dados antes que se possa começar efetivamente a traduzir.

 

• Interface pouco intuitiva: novamente, a “folha” do Word está ali, pronta para receber texto. A tela das CAT Tools, com sua divisão do texto em segmentos e várias áreas secundárias com informações/sugestões, botões e ferramentas, é bem estranha aos olhos dos usuários recém-chegados.

 

• Manuais complexos: embora os manuais sejam bem completos e demonstrem detalhadamente todas as funções do uso de uma CAT, é raro encontrar um guia específico para usuários sem experiência com esse tipo de programa.

 

• Preço alto: as CAT Tools mais famosas, como o Trados Studio e o memoQ, têm licenças que custam algumas centenas de dólares ou euros. Embora o valor seja justificável pelos ganhos em produtividade (e como o investimento acaba se pagando conforme os trabalhos vão chegando), é um custo difícil de digerir num primeiro momento – sem falar na impossibilidade de parcelar a compra da licença no cartão de crédito.

Ou seja, há várias barreiras que afastam os tradutores desse tipo de programa e das suas vantagens. Adquirir novos hábitos é um processo que demanda algum esforço e, muitas vezes, preferimos continuar usando as ferramentas de sempre, mesmo que não sejam exatamente as plataformas mais otimizadas para a tradução.

Considerando todos esses fatores (além da própria dificuldade que senti quando estava começando a usar as CAT tools há uns anos), percebi que essa lacuna existia no universo da tradução. Era preciso criar uma solução para esse problema e ela deveria atender aos seguintes princípios:

A criação de um curso que pudesse ser usado como base para a compreensão do funcionamento de qualquer CAT Tool, já que todas elas funcionam de maneira muito parecida entre si.

 

O foco seria nas funcionalidades da ferramenta (conceitualização e uso de memórias de tradução, glossários, o trabalho com segmentos e os ganhos em produtividade).

 

Inclusão de noções sobre tópicos como as práticas de pagamento das agências de tradução e o uso de machine translation e de outras tecnologias associadas.

 

Projetos práticos de tradução para que os alunos possam aplicar o que aprenderam durante o curso.

 

Uso de uma ferramenta gratuita como base para a prática, de modo que os tradutores não precisem fazer investimentos muito altos no primeiro contato com uma CAT Tool. Ao mesmo tempo, enfatizar sempre que o conteúdo das aulas pode ser aplicado a qualquer ferramenta do mercado. As opções eram o OmegaT, o Matecat e o Smartcat, sendo que este último foi escolhido devido à maior quantidade de recursos e funcionalidades.

 

Olhando para esses últimos meses, e considerando a quantidade de colegas que conseguiram aprender “como se usa esse troço” comigo e com a Luciana, tenho a impressão de que os objetivos estão sendo alcançados. Mais do que simplesmente ensinar uma habilidade nova, é muito gratificante saber que estamos conseguindo qualificar os colegas de profissão e permitir que eles consigam mais oportunidades, mais clientes, mais trabalho e mais dinheiro. E o mercado inteiro fica melhor com isso.

E lembre-se: as CAT Tools estão aí para nos ajudar!

Fonte: Ruca Souza, www.pexels.com

 

Sobre o autor

 Ivar Panazzolo Junior é profissional do texto, graduado em Propaganda e Marketing, com especialização em design gráfico, branding e identidade visual. Desde 2008, dedica-se à tradução, atuando na área de literatura e de localização de jogos de tabuleiro, com mais de 62 traduções publicadas em mais de 13 anos de carreira. É também palestrante, sócio-diretor da Rook — Produção de Textos, Tradução, Localização e Revisão e criador do Curso de Introdução às CAT Tools. Quando não está debruçado sobre alguma tradução, normalmente se dedica ao design de jogos de combate medieval, leitura, séries e outros interesses do universo geek. Entre em contato: [email protected].

LinkedIn: https://www.linkedin.com/in/ivarjr/

 

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(1) Comment

  1. Ivan Costa Pinto

    Atualmente aposentado, usei muito as CAT tools Trados e WordFast. Traduzi todos os manuais de uma indústria de maquinaria pesada asiática. Quando fui gerente de Língua Portuguesa da Seção de Traduções de uma outra empresa de maquinaria pesada, desta vez americana, também usávamos CAT too. Não há melhor maneira de “fazer” traduções. Ivan Costa Pinto.

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