Blog

Eu sou Abrates: Julieta Boedo

 

  • Quem é você e o que você faz?

Meu nome é Julieta Sueldo Boedo, sou argentina de nascimento e brasileira por adoção, especificamente mineira. Sou tradutora e intérprete dos idiomas português e espanhol há mais de 20 anos. As minhas atividades dentro do âmbito da tradução são: tradutora e tradutora juramentada ES><PT, intérprete ES><PT, tradutora de legendas ES><PT e revisora de textos redigidos em espanhol e de traduções/versões entre os idiomas espanhol e português.

  • Como você chegou à tradução e como foi seu início?

Cheguei de uma maneira bastante comum para um estrangeiro. Primeiro, e ainda muito nova, comecei dando aulas de língua espanhola, sem ter, de início, qualquer formação – trabalho ao qual me dediquei com afinco por mais de 15 anos. Tive, inclusive, a minha própria escola de espanhol em Belo Horizonte. Nesse período, entrei no Curso de Letras/Licenciatura em Espanhol, no qual fiz até várias disciplinas de tradução, porém ainda não existia a habilitação em tradução na instituição. Na UFMG, para além de um grupo de obrigatórias, cada aluno constrói o seu próprio percurso acadêmico, e no meu histórico, pode-se observar que fiz a maior parte do curso em disciplinas em/sobre a Língua Espanhola, tanto no âmbito da linguística, quanto no da literatura e da tradução. 

Já como professora de espanhol, começaram a surgir trabalhos de tradução (acredito eu, e não que me gabe disso) por ser falante nativa da língua. Depois, fiz a pós-graduação em Tradução/Espanhol que, na época, era oferecida pela Gama Filho. Esse curso foi fundamental para fazer com que eu me voltasse mais para a área da tradução e para a construção de minha rede de networking de tradutores. Trabalhei, também, por nove anos para a recém-fundada Edições SM, editora pertencente ao grupo espanhol Ediciones SM, na qual tive a oportunidade de participar de várias áreas do fazer editorial no Brasil.

Coloquei aqui sobre ter feito meu percurso acadêmico mais voltado à língua espanhola e às literaturas hispânicas porque me considero uma especialista em língua espanhola e no par PT><ES. Por isso, consigo abranger e continuar incorporando distintas áreas de atuação (por exemplo, jurídica, marketing, médica, literária, entre outras), além de que, nesse par, é mais difícil conseguir trabalhar somente com uma área, porque a demanda é muito menor se comparada com o par português-inglês.

  • Para você, qual é o aspecto mais incrível da sua área de atuação?

Na tradução/versão escrita, o que mais me fascina é o processo de revisão final, no qual já não há mais cotejo com o texto original, a não ser que haja algum trecho/palavra que ainda o demande ou que se faça necessário se o texto não estiver claro etc., e eu posso, inclusive, esquecer de que esse original existe. É ali que eu vou colocar o texto “do jeito” que a língua de chegada pede, onde me permito ainda mais, como mudar a ordem das palavras no texto, usar outras palavras menos coladas no original e trabalhar mais profundamente na qualidade do texto final, por exemplo.

Já na tradução juramentada, para além da tradução, acho incrível o contato com tantas pessoas diferentes, tanto os estrangeiros que chegam quanto os brasileiros que partem para o exterior. A tradução juramentada cumpre um importante papel social.

Na legendagem, buscar o bem-dizer que reúna uma boa solução de tradução junto com a extensão necessária das legendas. E na interpretação, a emoção tão particular que a fala de cada interpretado nos transmite e que acaba se refletindo na nossa interpretação.

  • E o mais desafiador?

Acho incrível e fascinante todo e qualquer desafio tradutório! Acredito que os desafios para um profissional autônomo da tradução passam mais pelo aprendizado da gestão da sua vida profissional, no sentido de manejar prazos, fazer orçamentos e precificar os diferentes serviços oferecidos, divulgar seu trabalho, se atualizar, entre outros.

  • Cite um mito e uma verdade sobre sua área de atuação que você só descobriu na prática.

O mito de que há palavras intraduzíveis, como “saudade”. Acredito que sempre podemos encontrar uma solução e que, inclusive, é essa uma das tarefas ineludíveis do tradutor. Já pensou se só os brasileiros pudessem sentir saudade? Por outro lado, e para além das palavras, é verdade que existem realidades que podem existir em um lugar e não em outros. Na prática, aprendemos a nos responsabilizar pelo texto que entregamos e devemos achar uma solução para todos os desafios que nos são apresentados. Nem sempre poderemos contar com a ajuda do autor, aliás, quase nunca.

Uma verdade, como disse o Borges, é de que a tradução pode superar o original, e que felicidade isso nos dá! Humildade argentina por aqui é mato!

  • Qual dica construtiva você dá para quem possa estar cogitando seguir na sua área de atuação ou para quem possa estar começando?

Acredito que fazer um curso superior faça toda a diferença! É claro que se for na área de Letras e especificamente de Tradução, melhor ainda, mas mesmo que não seja, é fundamental. Numa faculdade, a gente tem contato com diversos tipos de textos, ampliamos a nossa visão crítica sobre o que lemos e praticamos intensamente o ato da escrita. As ferramentas do tradutor são a língua e a linguagem. Não é necessariamente uma faculdade de tradução que te ensina a ser um profissional, o que acontece também com os demais cursos e profissões. Por isso, não espere isso de um curso superior. Porém, irá te ajudar a desenvolver as suas principais ferramentas de trabalho que são, como já falei, a língua e a linguagem. A outra dica já deve ter sido comentada por outros tradutores entrevistados: não deixe nunca de se atualizar! Mesmo com tantos anos de profissão, iniciei este ano inscrita no Curso Formativo para Tradutores Literários oferecido pela Casa Guilherme de Almeida, que exige, inclusive, uma carga horária bastante puxada e muita dedicação.

Saiba mais sobre a Julieta

Quer participar da série Eu Sou Abrates? Envie-nos um e-mail para [email protected] com o assunto “Entrevista: [seu nome]”. Esta série é exclusiva para membros.

Deixe um Comentário