Blog

Um dia na vida do tradutor de literatura russa

Para todo leitor de literatura russa, é um verdadeiro pesadelo entender, ler e memorizar a infinidade de nomes de personagens em um livro e, com muita frequência, as inúmeras variações para um mesmo nome. Agora, se para o leitor é complicado, já imaginou como deve ser complicado para os tradutores se lembrarem de cada nome e da transcrição de cada um deles?

Um exemplo comum é o nome Ivan Ivánovitch Ivánov (Ivan, filho de Ivan, da família Ivánov). Este mesmo Ivan pode ser chamado de: Ivanka, Ivania, Ivániukha, Ivániucha, Vania, e de mais umas quinze variações. Como o patronímico Ivánovitch pode ser também Ivánitch (informal), aquele mesmo Ivan Ivánovitch Ivánov pode ser chamado por dezenas de outras variações possíveis. Caso os personagens também conversem em outros idiomas (francês, inglês, alemão) na mesma obra, esse Ivan pode ser Johann (alemão), John (inglês), Jean (francês), etc. Acredite, os autores russos fazem questão de usar cada uma destas variações; é perfeitamente natural para os russos.

Passado esse pequeno susto inicial, um tradutor de língua russa não costuma ter problemas para transcrever esses nomes, pois há um certo consenso a respeito da forma padrão de transcrevê-los. Porém, há um agravante nesta história: e quando há um personagem estrangeiro em uma obra russa? Então é aí que chega a vez dos tradutores chorarem. Quando é um nome comum, como “John (Джон)”, a abordagem é muito simples. No entanto, quando se trata do nome de um personagem francês ou alemão, os russos costumam transcrever tal como se pronuncia, o que não significa algo bom, pois a transcrição também poderá depender da pronúncia do autor naquela língua estrangeira. 

Enquanto eu traduzia Dostoiévski, era muito raro ter algum problema com nomes estrangeiros (não consigo recordar de algum no momento). No entanto, enquanto traduzia e adaptava Tolstói, essa questão foi um verdadeiro pesadelo, sobretudo em Anna Karênina e, principalmente, em Guerra e paz, que apresenta muitos personagens históricos, além de localidades diversas — e eu não poderia arriscar e deixar de fazer uma pesquisa aprofundada. O próprio Tolstói acabava transcrevendo os nomes de maneira equivocada (mas eu não sou nenhum Tolstói, então não poderia arriscar).

Em Guerra e paz, muitas vezes os nomes dos personagens foram escritos como se pronuncia, como Franz (Francisco, do alemão) que era escrito como “Франц (Frants)”, o que torna inviável traduzir o nome do imperador Francisco da Áustria como “Frants”. Havia também a citação da família de nobres alemães, os Württemberg que, se transcrito como estava em russo, seria algo como “Virtemberg” (em russo, Виртемберг). Esta adaptação de Guerra e paz foi um verdadeiro desafio, pois há por volta de quinhentos personagens, entre russos, alemães, italianos, franceses, poloneses, lituanos, etc.

Recentemente, traduzindo outro autor russo, mais para o gênero do terror com ficção científica (nome sob sigilo contratual), deparei-me com uma obra russa na qual nenhum personagem tinha nome russo. Havia nomes em inglês, alemão e francês. A primeira dificuldade foi com uma moça que se chama Laurent (em russo Лоран, transcrito como “Loran”). Esse nome eu precisei colocar na busca, até que surgiu uma referência a Yves Saint Laurent em russo, ufa! O restante foi mais fácil, havia até um John. No entanto, quase na metade do livro, encontrei algo parecido com “Тома”; a primeira coisa foi escrever “Tom”, principalmente porque, de acordo com as declinações da língua russa, no modo acusativo e genitivo masculino singular, acrescenta-se a letra “a” ao final de nomes próprios e substantivos animados. E, por diversas vezes, o nome “Том” aparecia sempre como objeto direto ou indireto, ora como “o braço do Tom” (рука Тома), ora como “a cabeça do Tom” (голова Тома).

Para piorar a situação, quando nomes estrangeiros são utilizados em língua russa, não se usa, ou não há a obrigatoriedade de usar, as declinações. Pois bem, dois meses depois do surgimento do misterioso “Том”, surgiu-me a ideia de procurar mais a fundo, pois quando o nome do personagem era o sujeito da oração, o nome continuava sendo “Тома”. A minha primeira opção seria que o nome dele fosse “Toma” e não “Tom”; mas que nome esquisito é esse? De onde vem? Procurei ainda mais e encontrei referências inglesas sobre a obra, e todas se referiam ao personagem como “Tom” ou até “Toma”.

Partindo de “Toma”, comecei a procurar por “Thomas” e “Tomás”; procurei sobre Thomas Edison no Wikipedia russo, o que resultou em “Томас Эдисон” (transcrito como “Tomas Edison”). Então, descartei a possibilidade de “Thomas”; procurei por Tomás de Aquino, que resultou em Томас де Акино (transcrito como “Tomas de Akino”). Descartei assim o “Tomás”, também.

Quando pensei que chegara à estaca zero, comecei a apelar para outros idiomas, visto que no livro usa-se nomes em inglês, francês e alemão. Qual foi o meu último recurso? Sim, o famigerado Google Tradutor! Tenho o francês como idioma passivo, de tanto traduzir parágrafos e páginas inteiras em francês das obras de Tolstói, corri para o Google Tradutor, usando a opção de ouvir a tradução, e comecei novamente com as variações: Tom, Toma, Tomás, Thomas. Finalmente! Embora a transcrição de “Thomas” para o russo seja “Томас” (transcrito como “Tomas”), o autor resolveu transcrever “Thomas” exatamente como se pronuncia em francês, omitindo a última letra e acentuando na letra “a”. Por fim, após algumas semanas de pesquisa e quase desistindo e deixando como “Tom”, substituí na CAT Tool as ocorrências de “Tom” por “Thomas”. 

Este episódio certamente ficará em minha memória por muito tempo (ou até a próxima enrascada). Fica também a lição de que nunca se deve desprezar uma ferramenta, mesmo que seja o Google Tradutor. Agora, sigo em minha jornada, torcendo, em vão, para não encontrar mais nenhum nome misterioso neste livro de terror com ficção científica, nem na obra de Tolstói (também sob sigilo contratual), que permanecerei traduzindo ao longo deste ano pandêmico. Alguém já imaginou se os tradutores de literatura russa não tivessem um prazo tão “razoável” para trabalhar, o que seriam destas pesquisas tão aprofundadas?

 

Sobre o autor

 

Robson Ortlibas é tradutor de português, inglês e russo. Formado em tradução e interpretação, atua na área de tradução audiovisual (legendagem e dublagem) e de tradução de literatura russa.

 

 

 

Contribua com o blog! Envie sua proposta para [email protected]

  • Tags:

Deixe um Comentário