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Afinal, os japoneses falam muito ou pouco? Uma pequena contribuição do ponto de vista de uma intérprete de japonês.

O universo da interpretação de conferências é multicultural por natureza. Com a predominância dos eventos remotos a partir de 2020, essa característica foi ainda mais reforçada, e pessoas do mundo todo se reúnem com mais facilidade a um custo muito menor. Assim, as chances de acabarmos interpretando palestrantes de outras culturas é muito grande, e conhecer um pouco do que é recorrente na forma das pessoas desses países exporem as suas ideias pode ajudar um profissional a ter uma visão mais precisa do que está acontecendo no processo de comunicação.

Recentemente, uma colega tradutora do inglês me disse que ficou com a impressão de que os japoneses tinham frases mais longas para o “mesmo” conteúdo em inglês. E ela me perguntou o motivo disso acontecer. Aproveito então para respondê-la e para adicionar mais algumas análises.

Se você sabe um pouco de cultura japonesa, essa afirmação pode lhe parecer um pouco estranha, pois o país é conhecido pela sua comunicação high-context. Como bem expressa Kakuzo Okakura em “O Livro do Chá”, um dos clássicos da literatura sobre a cultura japonesa, “a essência da cortesia obriga que a pessoa diga aquilo que dela se espera, e nada mais”. Há também um provérbio japonês que diz: “ouça 1, entenda 10” (ichi wo kiite juu wo shiru). Deixe-me explicar melhor.

Uma comunicação high-context, que não é exclusiva do japonês, dá maior ênfase na forma do que no conteúdo, sendo que muita informação é tacitamente compreendida. Por isso, o que está nas entrelinhas precisa ser captado, dado que o que é subentendido é suprimido. Nesse caso, a comunicação não verbal (linguagem corporal, expressão facial, etc.) ajuda bastante, e até os silêncios precisam ser interpretados. Alguns países asiáticos e árabes estão nesse conjunto. Na outra ponta, estão países como EUA e Alemanha, exemplos representativos de uma comunicação low-context. A ênfase está mais no conteúdo do que na forma e, independentemente do contexto, as pessoas precisam de informações diretas, sem meias-palavras. Cultura é sempre relativo, e o Brasil está no meio do caminho entre esses dois extremos.

Um caso famoso de confusão aconteceu durante a visita do então primeiro-ministro Eisaku Satō aos EUA, em 1969. A relação entre Japão e os EUA estava estremecida por conta de atritos comerciais. Em uma das conversas com o Presidente Richard Nixon, solicitou-se ao Japão que limitasse as exportações de tecidos baratos aos EUA. Diante dessa solicitação, de acordo com o The New York Times, Satō disse, olhando para o teto: “Zensho shimasu” . O termo significa, literalmente, “Farei o meu melhor” e foi assim que o intérprete transmitiu a informação. Nixon saiu contente da reunião. No entanto, para um japonês, essa expressão não significa necessariamente que algo será feito. Está mais próximo de algo como “vou pensar no seu caso e tomar a melhor decisão”, o que não indica nenhum compromisso. Posteriormente, Nixon chamou Satō de mentiroso em diversas ocasiões!

No idioma do país que criou o Haiku, um dos estilos de poema mais curtos do mundo, por vezes, o intérprete precisa ter um conhecimento profundo do contexto em que o discurso está inserido para conseguir fechar algumas mensagens corretamente. E isso adiciona mais um desafio aos esforços cognitivos demandados em uma interpretação. Então, o que acontece que parece que os japoneses constroem frases mais longas?

O japonês é um idioma sensível a aspectos sociais e hierárquicos, e quanto mais formal e mais polido, mais isso impacta na comunicação verbal (Gile, 1992). Assim, quanto mais formal e polido, mais longas as frases ficam. Além disso, em discursos que apresentam uma opinião do palestrante, é comum o uso de atenuantes, pois os japoneses tendem a evitar afirmações categóricas em suas falas. Por isso, costumam usar conclusões que vão além de afirmação ou da negação, o que prolonga o final da frase apenas para atenuar o tom do discurso, algo que faz pouco sentido ser traduzido para outros idiomas. Deixe-me exemplificar com algumas frases nos dois idiomas, em um registro formal.

 

Solicito que aprofundem a compreensão sobre X.
X he no gorikai wo fukamete itadakimasuyou onegai moushiagemasu.

Vou falar sobre X.
X ni tsuite moushiagetaito zonjiteorimasu.

 

Um exemplo de atenuante é o caso de adicional ao final da frase, por exemplo, “acho que seria algo como X”. (X dewa nai ka to zonjiteorimasu). Expressões desse tipo não são exatamente traduzidas ou interpretadas, pois são mais uma demonstração de humildade que faz sentido no japonês, mas não são naturais em português.

Além disso, há diversas “convenções sociais” que envolvem algumas ocasiões, como os cumprimentos. Os japoneses não costumam agradecer apenas a presença das pessoas em um evento e costumam incluir um pequeno pedido de desculpas pelo participante ter se dado ao trabalho de disponibilizar seu precioso tempo, apesar da agenda corrida. Além disso, ao conhecer alguém pela primeira vez, é comum usarmos expressões mais longas para demonstrar humildade e comprometimento com o trabalho. Por exemplo:

 

Muito prazer. Meu nome é Anna, sou sua intérprete.
Hajimemashite, tsuyaku wo tsutomesaseteitadaku Anna to moushimasu. Yoroshikuonegai itashimasu.

 

Na interpretação simultânea, estamos o tempo todo buscando “alguns segundos” para concluirmos as frases, ainda mais que o verbo está no final da frase e essas expressões mais longas costumam nos proporcionar algumas “pausas”, como indica Gile (1992). Por outro lado, o desafio é posto para o intérprete que está interpretando também para o japonês, pois em casos muito formais precisamos usar as expressões polidas, o que faz com que se tenha uma exigência de tempo muito maior para concluir algumas frases. Por isso, o preparo prévio e o conhecimento das formalidades são muito importantes na interpretação.

Hoje, os eventos estão acontecendo com participantes do mundo todo e, muitas vezes, os participantes acabam tendo que se expressar em inglês. Agora que você já conhece um pouco mais da cultura e de aspectos do idioma, atenção para a tradução de “you”; provavelmente, a melhor tradução será “senhor/senhora” ao invés de um informal “você”.

 

Sobre a autora
Anna Ligia Pozzetti

 

Anna Ligia Pozzetti é intérprete de conferências e trabalha com os idiomas inglês, japonês e português. É certificada pelo Center for Interpretation and Translation Studies da University of Hawaii at Manoa como intérprete de conferências nos pares japonês/inglês. Formada em ciências econômicas pela Unicamp e mestre em história econômica pela mesma universidade, trabalha como intérprete desde 2012 e possui uma vasta experiência em diversas áreas. Cria conteúdos sobre cultura japonesa e interpretação em @komorebitranslations. É membro efetivo da APIC e associada ao SINTRA e à ABRATES.

 

 

 

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