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O intérprete como mediador cultural

Há um aspecto de nossa profissão que negligenciamos e que pode ser uma interessante fonte de renda. Parece ser óbvio, simples, mas não é.

Cito dois exemplos da minha experiência. Meu cliente era mais alto que seu advogado, portanto, ao sentar-se na cadeira, ele se fez diminuto para evitar que seus olhos ficassem na mesma linha que os do “Doutô”. E o “seu Doutô” tomou aquela posição como admissão de culpa, vergonha. Em outro caso, que já corria há coisa de 5 meses, o cliente se desfez em lágrimas quando soube que teria que ir ao escritório do oponente para responder a interrogatório.

Nossos códigos de ética insistem que devemos ser invisíveis, mas será que isso é realmente aplicável em todos os casos? Bom, eu me vi obrigada a interferir em favor de meu cliente e explicar ao “seu Doutô” que a posição que seu cliente havia adotado era sinal de respeito. E ao outro, que era melhor ele explicar o processo legal dos EUA, pois a única referência que sua cliente tinha era a do Brasil, onde o processo é bem diferente. Em cinco meses de histórico e três intérpretes antes de mim, ninguém se deu conta daquela falta de informação.

Muitos ainda se lembram da imagem do Michael Phelps com marcas circulares no corpo. Seriam sinal de mau trato? Imagine agora uma médica ou enfermeira vendo essas mesmas marcas no corpo de uma criança sentada no colo de sua mãe, que não fala bem o idioma… Nos EUA, o hospital é obrigado a chamar o serviço social e dar queixa contra os pais da criança em casos de mau trato.

Notinha cultural: a sucção é um tratamento tradicional em alguns países asiáticos.

Voltando ao lado jurídico, reconhecemos que não existe paralelo perfeito entre os sistemas jurídicos ou seus protocolos. As técnicas variam, os processos são diferentes, mas o objetivo é o mesmo: a justiça.

Bill Kanasky, em seu artigo Como preparar testemunhas estrangeiras para o julgamento  (em inglês), diz que o principal obstáculo não é a barreira linguística e sim a barreira cultural.

Meus dois exemplos acima confirmam isso e minhas experiências como intérprete em interrogatórios, arbitragens internacionais, reuniões de negócios e consultas médicas, nos Estados Unidos, comprovam essa verdade.

Muitos advogados não entendem como trabalhar com seu intérprete. É como se fôssemos um telefone mágico. Nós é que temos que mostrar o valor extra que trazemos para seus negócios, como nosso conhecimento da cultura – tanto a brasileira quanto a do cliente estrangeiro – pode aumentar nosso valor como parte da equipe de preparação da testemunha ou de atendimento ao cliente e como nossa presença facilita um melhor retorno sobre o investimento feito pelo escritório de advocacia, ou clínica médica, ou na sala de reuniões.

Agora que você reconhece o seu valor além das suas cordas vocais, é hora de explorá-lo. Primeiro, determinando com quem queremos trabalhar, depois – partindo do ponto de vista do cliente – identificamos os problemas em cuja solução podemos ser parte ativa e definir nossa meta.

Vejamos um exemplo. Como você vai usar o processo acima para criar sua mensagem?

Identificar o cliente desejado – No caso de advogados, devemos determinar ainda o tipo de prática (grande escritório, indivíduos), o tipo de advocacia (corporativa, familiar, criminal) e suas subdivisões. Em medicina, as mesmas perguntas podem ser adaptadas: tipo de prática (hospitalar, clínica, individual), tipo de medicina (pediatria, ortopedia, eletiva, cirúrgica) e suas subdivisões.

Problemas a solucionar – Preparação de testemunha, explicação de procedimento médico, tradução de material promocional ou informativo.

Criando um cenário prático, digamos que o cliente desejado é advogado da área da família com especialização em sucessão. O diretório da OAB vem a calhar, ou você pode fazer uma pesquisa diretamente no Google.

Mas você não é juramentado. E agora? Há outros serviços que você pode oferecer, como tradução do website, de textos para o blog, de documentos informativos, e legendagem de vídeos informativos que o escritório use interna ou externamente…

Como você vê, além de conhecer o perfil de seu cliente, saber o tipo de serviço que pode prestar é crítico. Outra coisa para a qual não atinamos: a faixa etária de nosso cliente e de seus clientes. A língua é viva e saber qual registro melhor se adapta a nossos clientes e a seus clientes é importante. Algumas pessoas vão gostar de ouvir “Teremos prazer em atendê-lo”, enquanto outras respondem melhor a “Aqui você é sempre bem-vindo” ou ainda “Nossas portas estão abertas para você” – este último exemplo é neutro em relação à formalidade do registro e neutro em relação ao gênero do leitor. E devemos estar preparados para refletir isso na língua de chegada, como apropriado.

Há várias ferramentas disponíveis on-line para ajudar você em sua busca e vários cursos de marketing oferecidos por colegas. Você está pronto(a) para explorar esse novo mercado?

 

Sobre a autora

Gio Lester é a atual presidente da Abrates. Sua carreira em interpretação e tradução teve início em 1980. Ex-Administradora Assistente e Administradora da Divisão de Interpretação da ATA, co-fundadora e ex-presidente (por dois mandatos) da ATIF, editora-chefe do blog da NAJIT (2016-2020), contribuinte para várias publicações de classe (impressas e on-line), membro da IAPTI, vice-presidente interina da NBCMI (entidade estadunidense certificadora de intérpretes de medicina), co-organizadora do programa de interpretação da University of the Bahamas (Nassau, Bahamas), chefe do Comitê  Consultivo de Tradução e Interpretação do Miami-Dade College (2017-2019),  etc. Gio também organiza vários eventos de treinamento para tradutores e intérpretes e apresenta palestras para a Florida International University, ATA, NAJIT, ATIF, NBCMI, IAPTI, Abrates, Interpreter Education Online, De La Mora Institute, entre outros.

 

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