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Ergonomia e estilo de vida


O número de trabalhadores em home office no Brasil durante a pandemia da COVID-19 chegou a 9 milhões, segundo dados divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Com isso, as Doenças Ocupacionais Relacionadas ao Trabalho (DORT), principalmente as Lesões por Esforços Repetitivos (LERs), são a segunda maior causa de adoecimento no trabalho. As queixas mais comuns são tendinite, bursite, síndrome do túnel do carpo, dedo em gatilho e inflamação em nervos e músculos, que causam dores incapacitantes. Essas doenças são provocadas por atividades relacionadas à organização do trabalho, como a repetição de movimentos, fatores psicológicos e sobrecarga física. Durante a pandemia, esse quadro se agravou devido às péssimas condições de trabalho e à pressão do dia a dia. Trabalhadores em home office trabalham mais tempo e com mais intensidade. Esses dados apontam para a urgência de se colocar a Ergonomia no terreno da saúde pública, para que sejam realizadas políticas de saúde que deem conta dessa questão.

Ergonomia é a disciplina relacionada ao entendimento das interações entre os seres humanos e os sistemas de trabalho. Além disso, é a profissão que aplica teorias, princípios, dados e métodos para projetar o trabalho, a fim de garantir o bem-estar humano e o desempenho geral de um sistema. O ergonomista é, ao mesmo tempo, um cientista no estudo da realidade do trabalho e um especialista em sua transformação positiva. Os objetivos da Ergonomia são investigar e avaliar as demandas de um projeto, no sentido de assegurar a ótima interação entre trabalho, produto, ambiente e as capacidades humanas e suas limitações, garantindo a saúde do trabalhador e a otimização do trabalho. Deve ser aplicada preventivamente. Por meio da observação do ergonomista, é possível modificar os sistemas de trabalho visando adequar as atividades às características, habilidades e limitações das pessoas, para que o resultado seja um desempenho eficiente, confortável e seguro. A ergonomia compreende três áreas de atuação: física, cognitiva e organizacional.

A ergonomia física dedica-se aos aspectos físicos de uma situação de trabalho, sobretudo o corpo do trabalhador, com exigências específicas e diferentes ao longo da jornada de trabalho. A ergonomia física busca adequar essas exigências aos limites e às capacidades do corpo, por meio de projetos com interfaces adequadas para a relação física sujeito-máquina. Para isso, são necessários diversos conhecimentos sobre o corpo humano e o ambiente físico onde a atividade se desenvolve. A ergonomia cognitiva aborda processos mentais, como percepção, memória, raciocínio, resposta motora, interação dos pares e outros elementos do sistema, enquanto a ergonomia organizacional aborda a otimização dos sistemas sociotécnicos, incluindo suas estruturas organizacionais, políticas corporativas e processos de produção e de negócio.

É frequente a resistência de grande parte das empresas e de pacientes com LERs/DORT, no investimento em melhorias ergonômicas, mas, paradoxalmente, eles investem em programas e softwares caros e sofisticados. Cadeira, teclado, mouse, monitor de boa qualidade podem ser dispendiosos, mas respeitam a anatomia dos usuários e lesionam menos. No fim das contas, o trabalhador se beneficia e não fica refém de serviços médicos. É fundamental rever as prioridades.

Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), a saúde tem implicações legais, sociais e econômicas. A definição mais difundida é a de que a saúde seja um estado de completo bem-estar físico, mental e social, não apenas a ausência de doenças. Portanto, é fundamental um olhar preventivo, que deve respeitar os limites de cada indivíduo, bem como cuidar criteriosamente dos diversos aspectos que compõem o bem-estar, como ter uma alimentação balanceada, não usar produtos industrializados, evitar o excesso de açúcar, sal e gorduras saturadas, priorizar comida de verdade, praticar atividade física por pelo menos 150 minutos por semana, ter um sono reparador e silencioso, e participar de práticas de meditação e contemplação para a diminuição do estresse. Um bom ajuste ergonômico é muito importante, pois, além de organizar o ambiente de trabalho de acordo com as necessidades individuais, permite que o trabalhador tenha um olhar sobre si desvinculado da relação indivíduo-máquina. Aqui vão algumas dicas desses ajustes:

Se você necessita de alguma correção visual, garanta que seus óculos ou lentes estejam em dia. Posicione adequadamente o seu equipamento: o monitor deve ficar de lado para a janela. Caso você esteja de frente ou de costas, deve haver persiana mantida fechada. Procure identificar fontes de reflexo na tela do monitor de vídeo (essa identificação costuma ser mais fácil com o monitor desligado). Em algumas situações, a inclinação do monitor de vídeo pode ajudar.

Posicionamento em frente ao monitor de vídeo:

O monitor deve estar bem em frente aos seus olhos. Não trabalhe com o monitor de lado, pois isso exige torções de tronco e pescoço, com possíveis consequências dolorosas para os músculos. Para ajustar a distância, estique seu braço: a distância ideal é quando somente a ponta dos dedos tocam a tela. Em relação à altura do monitor de vídeo, seus olhos devem incidir no centro da tela. Caso você utilize dois monitores, um atrás do outro, o que for utilizado com mais frequência deve estar posicionado atrás, e o outro deve ser aquele que fica mais próximo de você, para diminuir as rotações de pescoço. No caso de uso de óculos multifocais para presbiopia (vista cansada), o melhor posicionamento do monitor é um pouco mais abaixo da horizontal dos olhos: monitores no nível da horizontal dos olhos trazem desconforto, pois o usuário tem que inclinar a cabeça para trás para obter foco na parte de baixo das lentes multifocais. Regule a luminosidade e o contraste da tela para evitar esforços visuais.

Cadeira:

Evite cadeiras fixas, cadeiras com ângulo reto entre as coxas e o tronco e cadeiras de palhinha. É importante que a cadeira tenha ajuste de altura do assento, ajuste de inclinação do assento e inclinação do encosto e do assento. As cadeiras devem girar, possibilitar regulação da altura do assento, do encosto lombar e dos braços. Primeiro, ajuste a cadeira a você para, depois, fazer os ajustes com a mesa, teclado e demais equipamentos e acessórios. Quando estiver digitando, usando o mouse ou lendo, ajuste a cadeira de tal forma que o tronco e as coxas formem um ângulo de aproximadamente 100-110 graus.

Mesa de trabalho:

As mesas com 75 cm de altura são mais fáceis de adaptar. Dê preferência para as mesas com bordas arredondadas e não utilize mesas com tampos de vidro ou com superfícies brilhosas, de forma a evitar reflexos e ofuscamento nos olhos. Procure liberar espaço na sua mesa de trabalho; se necessário, afaste a CPU e deixe um espaço para movimentar o teclado um pouco para frente e um pouco para trás. Todos os objetos de uso constante devem estar o mais próximo possível de seu corpo, evitando as torções de tronco. Evite colocar objetos/documentos pesados em gavetas que estejam próximas do piso; de preferência, não as utilize. Pode-se lançar mão do uso de suportes ergonômicos para o punho no uso do teclado e do mouse, deixando as articulações na posição neutra e evitando compressões de nervos, vasos sanguíneos e músculos (no caso de mesas com “quinas vivas”).

Teclado e mouse:

Indica-se que o teclado seja independente e que tenha mobilidade, permitindo seu ajuste. Ele deve estar no mesmo plano do mouse. Teclado e mouse ergonômicos.

Notebook:

Para que o notebook possa ser utilizado por longos períodos de tempo, é necessário montar o posto de trabalho com um teclado e mouse externos e posicionar o notebook sobre um suporte, de modo que a altura da borda superior da tela possa ser ajustada no nível dos olhos do usuário. Dessa maneira, é possível ter um bom conforto visual e boa condição geral de trabalho.

Síntese da postura correta para o trabalho:

Procure sentar-se sempre alinhado com o eixo da cadeira; as pernas em rotação externa. Evite sentar-se de forma torta: seu corpo, o teclado e o monitor de vídeo devem estar alinhados. O monitor de vídeo utilizado com maior frequência deve estar bem na frente dos olhos, e a distância correta é de aproximadamente a distância do seu braço esticado. Braços soltos, ao lado do corpo; teclado e mouses colocados numa posição equivalente à dos cotovelos; os antebraços devem ficar horizontalizados apoiados sobre a mesa e alinhados com o teclado e com o mouse. Coluna reta em relação à mesa e ao monitor de vídeo; o ângulo entre o tronco e as coxas é de aproximadamente 100 graus e os pés devem ficar apoiados num suporte portátil. Não faça concessões em relação à postura, ou seja, não adote posturas erradas, nem em trabalhos de pequena duração, e não use talas de imobilização do punho para trabalhar. Quando puder, trabalhe em pé. Encontram-se com facilidade mesas com regulagem de altura no mercado. A alternância de postura evita posturas viciosas.

Pausas para distensionamento e alongamento:

Em qualquer situação, a cada hora (no máximo), interrompa o trabalho por 10 minutos, levante-se, ande um pouco e faça exercícios compensatórios. Em atividades contínuas de digitação/inserção de dados, a pausa prescrita pela legislação brasileira é de 10 minutos a cada 50 minutos trabalhados. É importante lembrar que essa flexibilidade é ainda mais necessária quando o trabalho exige muita concentração mental ou quando se está muito tenso, pois, nesses casos, a tendência normal do organismo é ficar ainda mais estático. Durante esse período, evite ler, uma vez que, durante o esforço com o computador, os músculos ciliares (músculos internos dos olhos) também são muito exigidos.

Hidratação:

Capriche na hidratação; a cada ida ao banheiro, alongue-se e beba mais água; assim, você evita a repetitividade.

 

Sobre a autora


Lucíola Lessa é fisioterapeuta há 25 anos. Trabalha no Rio de Janeiro com RPG, osteopatia, ergonomia e microfisioterapia. É estudante apaixonada de Ayurveda e saúde coletiva.

 

 

 

 

 

 

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