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AbratesAfro: Tradução de contos africanos

Duas graduandas do Projeto AbratesAfro, Tainá Almeida e Karla Rodrigues, traduziram contos africanos para a Revista Periferias, que é publicada em espanhol, francês, inglês e português. Os dois contos de origem africana, um nigeriano e o outro sul-africano, foram publicados recentemente. Abaixo temos dois excertos e os links da publicação original.

Tainá e Karla receberam, cada uma, uma bolsa de inscrição na Abrates, cortesia da Abrates, da Aqualtune Consultoria Linguística Ltda. (Rane Souza), da Walliter Linguistic Solutions (Carolina Walliter) e da Nimdzi (Renato Beninatto).

O primeiro conto, Ao incógnito, é de autoria de Winifred Òdúnóku, escritora nigeriana cujos trabalhos foram apresentados na “The Kalahari Review Nnöko Stories” e na “Tush Magazine”. Você pode ler os artigos da escritora em seu blog.

 

Ao incógnito

Por Winifred Òdúnóku (Nigéria)

Traduzido por Tainá Almeida

 

“Prepare-se para usar uma casca grossa antes de sair da Nigéria. Este lugar não sorri para não-oyinbos”, dizia a mensagem que Richard me enviou na noite anterior ao meu voo. Eu fiquei ruminando a mensagem e mastigando cada palavra para ter a perfeita compreensão de tudo: prepare-se para usar uma casca grossa antes de sair da Nigéria. “Uma casca grossa? Por que alguém deveria usar uma casca grossa antes de sair de seu país? No exterior tem tanto sofrimento quanto o que eu estou tentando escapar em meu país?”. Não pude deixar de pensar nessas coisas enquanto o tempo passava e o sono pesava em minhas pálpebras.

Estive ocupado demais me preparando para dar entrada em meu visto e pensando se eu o conseguiria. Então, quando recebi o visto, sem nunca ter viajado antes, comecei a pensar se conseguiria embarcar no avião. Agora que um dos objetivos da minha vida inevitavelmente se concretizaria, os pelos da minha nuca arrepiavam conforme a ansiedade aumentava. Durante o voo, tive um novo tipo de medo. Algo sobre estar tão acima do chão pode te fazer pensar sobre a vida e tudo mais. De repente, percebi que não tinha pensado tanto na mensagem de Richard. O que ele quis dizer com não-oyinbos? Eu não era aquilo. Eu era um estudante nigeriano, um dos melhores na minha área.

De tão bom que eu era eu ganhei uma bolsa de estudos integral em uma das melhores universidades da Europa. Será que com certeza apenas meu intelecto contava nessa empreitada? O que a minha falta de branquitude teria a ver com isso? Eu era um cara legal. Por que a terra para onde eu estava indo não iria sorrir para mim por eu ser um não-branco? Tirando o fato de que voar tipo quase que aguçava minha psique para além do limite, eu nunca tinha experimentado algo particularmente tão emocionante.

Por exemplo, eu não sabia que precisava passar pelos outros passageiros e procurar pelo assento cuja numeração batesse com a do meu cartão de embarque. Então, sentei na primeira poltrona confortável, com as consequências do constrangimento. Colocar meu cinto de segurança foi outra tarefa vergonhosa, pois pensei que o do avião fosse igual ao cinto de segurança de um carro. E, então, as turbulências, que mais se pareciam com uma estrada cheia de buracos, fizeram os músculos do meu pescoço e dos ombros se enrijecerem tanto que quase saltaram para fora da minha pele. Sem mencionar a decolagem e aterrissagem que me fizeram segurar firme na poltrona e rezar. De qualquer forma, no ar, em caso de yawa, não tem para onde escapar. Por essa simples razão, me forcei a detestar viagem de avião.

Agora estou no saguão do Aeroporto de Glasgow aguardando por um representante da Universidade Caledonian me buscar. Lancei um olhar fortuito aos inúmeros pares de olhos que me rodeavam como uma nuvem de testemunhas, em busca de alguém com uma identificação parecida com a da universidade. Parecia perdido em minha própria solidão com uma mão segurando minha placa de “estudante nigeriano” e a outra coçando meu cabelo black, simultaneamente.

— Sr. Bosun Majek? — alguém chamou atrás de mim.

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O segundo conto, Volta pra casa, é de autoria de Itumeleng Molefi, educador do ensino médio, escritor independente e youtuber nas horas vagas. Além de professor, Molefi também escreve e produz vídeo-ensaios sobre literatura africana com sua equipe para o canal BOTLHALE no YouTube. Seus trabalhos foram publicados no “The Johannesburg Review of Books”, na “Kalahari Review” e no “Mail & Guardian”.

 

Volta pra casa

Por Itumeleng Molefi (África do Sul)

Traduzido por Karla Rodrigues

 

DE: [email protected]

PARA: [email protected]

DATA: Terça-feira, 12 de julho, 17:54

ASSUNTO: Ensaio pessoal para solicitação de bolsa de estudo

 

Oi Ookeditse

Espero que Ibadan esteja tratando você bem.

Novamente, obrigada por concordar em me ajudar com isto. E um OBRIGADA ainda maior por não dizer a Ofentse. Eu sei que ele me ama e que tem apenas boas intenções, mas ele sempre quer controlar tudo que eu faço!

Meu ensaio está anexo. Decidi seguir a seguinte orientação: conte-nos sobre uma pessoa que teve grande influência sobre você e descreva essa influência.

Sei que está bem acima do limite de palavras, então preciso de ajuda para decidir o que cortar e como, em geral, fazer com que fique mais coerente.

Aguardo ansiosamente por sua resposta.

Kea

P.S.: Nós estudamos vírus nas aulas de Biologia na escola semana passada. Ontem nós começamos a estudar pandemias passadas (como o surto de gripe de 1918, a pandemia por COVID-19 de 2019-23 e todas as diferentes pandemias por SARS) e como cada uma delas mudou as políticas públicas de saúde. Eu penso que saúde pública é no que eu gostaria de me especializar.

*

DE:[email protected]

PARA: [email protected]

DATA: Quarta-feira, 13 de julho, 11:04

RE: Ensaio pessoal para solicitação de bolsa de estudo

 

Bom dia Keabetswe

Ibadan está bem, obrigado por perguntar. Espero que Gaborone esteja tratando a você e sua mãe bem.

Eu li seu ensaio. Ele segue, anexo, com meus comentários em itálico e vermelho.

Há partes que acredito funcionar excepcionalmente bem (as quais você deve manter) e outras que você deveria pensar em suprimir por completo.

Todavia, para dizer a verdade, eu esperava ler muito mais sobre seu pai. Nas poucas vezes que Ofentse falou dele para mim, eu tive a impressão que vocês dois eram muito próximos.

Outra coisa é que apenas no final do ensaio você começa a conectar seus pais, a influência deles sobre você e porque você quer se tornar médica. Acho que se você escrever mais sobre a morte do seu pai, você poderá começar essa conexão no início do texto e conectar esses diferentes aspectos de uma maneira linda.

Obviamente, você não tem que fazer isso se não sente vontade de acessar um lado emotivo.

Me diga o que acha.

Com carinho,

O.

*

Sempre soube que meus pais levaram muito a sério o trabalho de criar meu irmão mais velho e a mim. Isso é comprovado no meu nome. Keabetswe: Eu recebi uma oferta sagrada. E por causa disso, eles fizeram muita questão de exercer uma profunda influência sobre minha vida.

Eu amo aprender coisas novas: fazer perguntas e buscar as respostas para elas é algo que sempre me entusiasmou. Eu consigo ligar meu amor pela busca de conhecimento à minha mãe. Quando eu estava na primeira série na África do Sul, ela basicamente me forçou a amar a leitura.

Meus colegas e eu éramos ensinados a ler usando uma cartilha. Na primeira, segunda e terceira séries, nós recebíamos um livro de leitura no início do ano com personagens que cresciam conosco a cada ano. Os personagens principais eram um menino e uma menina, seu cão de estimação, sua mãe e seu pai. Eles iam à escola, faziam novos amigos, brincavam em casa e assim por diante. E à medida em que progredíamos nas séries, eles ficavam mais velhos, seu mundo ficava maior com coisas como passeios ao shopping e visitas à família. O mundo deles se tornava mais habitado por familiares e novos amigos. E, à medida em que o mundo deles crescia, nosso vocabulário e gramática cresciam junto.

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