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ABRATES ou Sintra?

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O número de tradutores tem apresentado, no Brasil dos últimos anos, um crescimento inédito. Há muito mais gente no mercado, que processa quantidades também cada vez maiores de textos a serem traduzidos. Decorre daí que exista, é claro, muita gente que não conheça o histórico da ABRATES, e muito menos perceba que relação existe entre ela e o SINTRA. Afinal, existe SINTRA-ABRATES? Quem gerou quem, ou quem controla qual?

Elas são autônomas, e têm entre si a relação que têm aquelas bonequinhas russas que saem uma de dentro da outra: são parecidas e saem uma da outra, mas são indivíduos totalmente distintos.

Em maio de 1974, os tradutores criaram no Rio de Janeiro, com uma seção em São Paulo, a primeira organização de tradutores do Brasil, a ABRATES, Associação Brasileira de Tradutores, sob a inspiração de pessoas da importância de Paulo Rónai, Aurélio Buarque de Hollanda, Raymundo Magalhães Júnior (o primeiro presidente), Marco Aurélio Moura Matos, Elias Davidovitch, Clóvis Ramalhete, Daniel Rocha. A seção paulista da associação foi abrigada pela Faculdade Ibero-Americana; no Rio, ela se instalou nas dependências da mais antiga (1917) de todas as sociedades de direito autoral do Brasil, a SBAT – Sociedade Brasileira de Autores Teatrais.

Essa foi, durante alguns anos, a única organização dos tradutores no país. Data dessa época a primeira “tabela” ou lista de preços de trabalhos de tradução. Considerada “abusiva” e “ridícula” pela maior parte dos usuários dos serviços na época, acabou por se firmar e hoje a “Lista de Preços Sugeridos” que a sucede, divulgada pelo SINTRA, serve de base para uma grande parte dos clientes de tradução, especialmente os ligados ao governo. São também dessa época o primeiro Código de Ética e o primeiro trabalho universitário sobre tradução, realizado por Mário Galvão de Queirós Filho. É preciso lembrar, também, pelo menos dois nomes de pessoas que desde esses tempos até hoje realizam um trabalho importante para a categoria: Waldivia Portinho, ex-presidente da ABRATES e do SINTRA e hoje integrante da banca de credenciamento da ABRATES, no Rio, e Regina Alfarano, que esteve sempre na liderança da organização em São Paulo, inclusive como vice-presidente do SINTRA.

Apesar de tudo que se avançou, veio a década de oitenta e a recessão econômica, e, como tantas outras coisas, a organização dos tradutores não foi exceção – encolheu. Encolheu a ABRATES a zero em São Paulo, e a pouco mais do que isso no Rio. Mas foi a determinação das pessoas que a conduziam, Waldivia Portinho, Waltensir Dutra, e outros (poucos) mais, aliada ao amparo físico dado pela SBAT que permitiu que a ABRATES continuasse existindo. A despeito de tudo, a instituição sobreviveu.

Até 1988 a profissão de tradutor não era reconhecida, ou seja, apesar da existência do cargo de Tradutor Público, ou juramentado, instituído nos anos quarenta pelo próprio governo, a atividade da tradução era vista como eventual. Graças aos esforços, entre outros, da então presidente da ABRATES, Wilma Vidal, o Ministério do Trabalho reconheceu a profissão de tradutor em setembro de 1988. A partir desse ponto, passou a ser possível a constituição de um sindicato. O sindicato – que após exaustivas discussões acabou recebendo o nome de SINTRA, Sindicato Nacional dos Tradutores (sigla proposta por Mário Galvão de Queirós Filho) surgia a partir da ABRATES-RJ, ainda abrigado pela SBAT, em novembro de 1988.

Dezoito anos após a fundação, porém, o perfil dos associados havia mudado. O que começou como uma associação de pessoas ligadas à tradução de literatura abrigava agora um sindicato de profissionais em que predominavam, em número, os tradutores da área técnica. As relações entre os tomadores e prestadores de serviço haviam se ampliado e se alterado, e na visão da época era mais importante investir no sindicato, nacional, que representava oficialmente a categoria, do que em uma associação profissional.

Diante desse quadro, a presidente eleita em 1991, Lia Wyler, realizou em abril de 1992 a separação física entre o SINTRA e a SBAT, alugando, no mesmo prédio da SBAT, no Rio de Janeiro, um conjunto que é até hoje a sede do sindicato. Isso se justificava, não somente pelo crescimento do número de associados, como também porque os objetivos agora transcendiam a conquista do pagamento de direitos autorais, que era e é uma questão em que o SINTRA fica muito próximo da SBAT.

Em 1994, Waltensir Dutra, que sucedeu a Lia Wyler na presidência do SINTRA, faleceu no exercício do cargo, deixando, além da sua falta, o problema de a organização ter uma vice-presidente, Regina Alfarano, residente em São Paulo, o que era uma complicação do ponto de vista da burocracia. Foi feita uma eleição para um mandato-tampão, de um ano, para a presidência vaga, em que fui eleito, sendo a seguir eleito para mais dois mandatos (de dois anos cada) sucessivos.

Ao longo desses cinco anos, tive uma excelente – e suficiente – oportunidade de descobrir que realizar não é assim tão simples quanto planejar. O sindicato era uma conquista que teve oportunidade, apesar dos seus magros recursos, de mostrar a que veio. Conseguimos, inúmeras vezes, fazer com que clientes recalcitrantes acabassem por pagar aos profissionais. Tornamo-nos referência para os órgãos de governo, não só pela nossa “Lista de Preços”, como também pelo Cadastro de Associados que distribuímos e pelas informações que sempre nos prontificamos a dar.

Mas havia coisas que o sindicato não podia, ou não devia fazer. Um sindicato é uma organização com limites muito bem definidos. Perante o sindicato todos os membros da categoria (inclusive os não associados) são iguais. Essa é a natureza do sindicato.

Edições, por exemplo. Diversas ações ou empreendimentos sem caráter sindical ou classista. E algo que era especialmente importante: criar um exame de credenciamento. Não se tratava de indicar suficiência, e sim excelência. E assim sendo, por que não reativar a ABRATES, de nome já consagrado, e a que o SINTRA, de certa forma, sucedia?

As dificuldades burocráticas e as longas assembléias em que se discutiram estatutos fizeram com que só em dezembro de 1999 a ABRATES começasse, de fato, a existir. Os papéis, porém, são claros e distintos: o SINTRA é um sindicato, a ABRATES uma associação de profissionais.

E em novembro teremos eleições, em que se completará a separação das entidades, cada qual com sua diretoria, cada qual com sua missão, cada qual herdeira de um quinhão do patrimônio comum que se construiu nesses quase trinta anos.

Achei importante, neste momento, fazer este histórico, para que os recém-chegados conheçam o passado das nossas organizações. Dessa maneira poderão fazer melhor julgamento sobre elas, sem se esquecer de que qualquer organização é simplesmente tão boa quanto os que dela participam, e que cabe a cada um sugerir e participar. Caberá aos que assumirem a direção de cada uma das nossas organizações o equilíbrio entre a firmeza da orientação e a flexibilidade do ouvir a categoria.

Por Paulo Wengorski
02 fev, 15