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Será que vou ter trabalho amanhã?

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Quando os computadores começaram a penetrar nossa profissão, essa era uma pergunta constante. Alguns achavam que a tecnologia teria um rápido progresso e tornaria o nosso trabalho obsoleto. Outros clamavam: — Computador, jamais! Lembro-me até de um colega que credenciava sua resistência à mudança a uma suposta relação “sensual” com as teclas da sua máquina de escrever.

Muitas crises, moedas, governos, tecnologias, gerações de tradutores depois, essa ainda parece ser a dúvida principal: será que eu vou ter trabalho amanhã?

Eu acho que sim.

Há argumentos que o mercado de tradução foi comoditizado, ou seja, que se compra tradução como se compra soja ou açúcar a granel. Em vez de dólares por tonelada, falamos em centavos por palavra. Afirma-se que as margens são baixas e, dados os prejuízos de algumas empresas de localização nos Estados Unidos e na Europa, que não existe um verdadeiro mercado para serviços de maior valor agregado em torno da tradução. Os chatos de plantão reclamam que não dá para ganhar dinheiro num mercado em que os clientes não entendem a importância e o valor do tradutor.

Eu tendo a ver o mercado do ponto de vista econômico. O volume de informação gerado em língua estrangeira cresce a uma velocidade maior do que a capacidade de produção dos tradutores. Nesse contexto, a tradução humana tende à escassez. Ou seja, mais cedo ou mais tarde haverá mais conteúdo para ser traduzido do que tradutores disponíveis para fazê-lo. Em muitos casos, isso já é uma realidade. Se pudéssemos traduzir para o português toda a literatura médica publicada em inglês, certamente a qualidade da medicina no nosso país seria bem melhor.

Se você oferecesse boas traduções de graça, haveria filas de clientes querendo os seus serviços. A empresa australiana Wordlingo que o diga, ela oferece traduções grátis de e-mails e recebe mais de 7.000 pedidos por dia. Se, por outro lado, você cobrasse milhares de reais por palavra você teria dificuldade em encontrar clientes. E não pense que isso é absurdo. As agências de publicidade ganham muito dinheiro para “traduzir” um slogan de 10 palavras ou menos dentro de uma campanha publicitária mundial.

Em termos econômicos, tradução é um produto com elasticidade de preço. Isto é, a demanda aumenta ou diminui em função das variações do preço.

Que outras variáveis são levadas em consideração? Qualidade? Produtividade? Para ler um site sobre música alemã do século XVI, uma tradução por máquina feita em questão de segundos com ajuda do Babelfish pode me satisfazer apesar de manter muitas palavras no idioma original e de traduzir nomes próprios. Mas se eu quero publicar um artigo numa revista estrangeira, não há computador que me ajude, quero o melhor tradutor do Brasil e espero quanto tempo for necessário.
Se você é tradutor de inglês, a impressão de que falta trabalho é legítima. Houve uma queda na criação de conteúdo e conseqüentemente na demanda de tradução no último ano e o mercado está saturado nos níveis de preço mais baixos. Mas se você é tradutor de chinês ou árabe, tem filas de clientes na sua porta (se eles souberem como encontrá-los).
Como em qualquer profissão, existem diversos níveis profissionais. Há o famoso advogado porta-de-cadeia que vende seus serviços a troco de nada e os “juristas” que cobram o que querem e ainda acham pouco. Se você quer ser um “jurista” da tradução, invista em você mesmo fazendo quantos cursos puder e se especializando em alguma coisa que você goste. Invista na sua produtividade aprendendo a usar a tecnologia em seu favor. Invista nos seus relacionamentos fazendo amizade com quem é bem sucedido e participando da sua associação profissional.

 


Renato S. Beninatto (renato@commonsenseadvisory.com) é tradutor, empresário, fundador e owner da Lista de Tradutores (Trad-prt), membro do Conselho da empresa australiana Wordlingo, sócio da empresa Common Sense Advisory.

Por Renato Beninatto.
03 fev, 15