| Artigo:
O tradutor, o original mal escrito e o cliente |
Assunto/autor:
Alexandre Melo |
Todos nós já passamos pelas dificuldades de um texto mal escrito na língua de origem. Muitas vezes, é necessário um grande esforço para entendermos o que o autor realmente quer dizer. É aí, sem dúvida, onde o conhecimento técnico do assunto é de grande valia neste trabalho de interpretação, além do que o cliente reconhece, aceita e paga. E ai de nós se entregarmos um texto deficiente, por conta de falhas do original. As pedradas virão, tanto mais certeiras quanto maior o desconhecimento do nosso cliente a respeito da língua original no qual o documento foi escrito, pois nem poderá avaliar a sua qualidade. E, dificilmente, poderemos convencê-lo do que ocorreu na fonte. Quanto maior a ignorância do cliente sobre a língua portuguesa e a de origem, mais penoso ficará o nosso diálogo com ele. Dificilmente entenderá erros de concordância, verbos, do uso de preposições ou de construção, numa língua estrangeira. Acrescente-se a isto um certo grau de contemplação pacífica e benevolente, por vezes de admiração irrestrita, que encontramos em alguns profissionais brasileiros em relação a tudo que vem do estrangeiro.
Faço menção ao que já senti na própria pele, resultado do complexo em relação ao “olho azul”, talvez resquício do nosso passado histórico. Explicando, uso esta expressão que aprendi e ouvia com freqüência de um professor que tive na Faculdade de Engenharia. Mestre e Doutor por uma das melhores escolas de engenharia do mundo, o M.I.T., ele ressaltava as nossas qualidades técnicas e enfatizava a necessidade de analisarmos em profundidade o que nos era passado a título de transferência de tecnologia. Combatia a tendência dos nossos engenheiros menos capacitados de aceitar cegamente o que vinha do estrangeiro ou era dito pelos gringos “de olhos azuis”. O “olho azul”, dizia ele, falha tanto quanto nós. Ele tinha visto e vivido.
Na engenharia, passei bons anos na área de transferência de tecnologia, introduzindo novos produtos no Brasil por conta de visitas a fábricas no exterior, compra de máquinas, projetos e manuais. No campo da tradução técnica, é exatamente com transferência de tecnologia que estamos lidando. Em geral, traduzimos textos ou manuais que acompanham, por força de contrato, equipamentos importados. Ainda que estes representem o estado da arte, os documentos técnicos e manuais são, muitas vezes, um horror. E, quanto mais ignorante o técnico com quem lidamos, como cliente, mais ele tenderá a confiar cegamente no que o estrangeiro lhe mandou, em detrimento do tradutor. Tente convencer um ignorante, brasileiro, que o gringo fez um trabalho deficiente. Quase sempre, ele favorecerá o estrangeiro e criticará a nossa tradução. Uma proteção que pode ser usada com sutileza, quando o tradutor conhece o assunto técnico, é pedir que o cliente esclareça uma frase mal escrita, que torna confusa a operação do equipamento. Poderemos demonstrar que sabemos como funciona o equipamento mas que o parágrafo X indica outra coisa. Indicaremos que há mais de uma interpretação ou não se pode entender como o equipamento poderia funcionar diante do que está escrito. Isto traz resultados interessantes... e o cliente terá de dar uma solução.
Em outros casos, o próprio estrangeiro não conhece bem a sua língua ou o inglês, língua de muitos manuais de diversas origens, apesar de haver vontade de cumprir o contrato de fornecimento. Certa vez, traduzi um longo manual de complicada aparelhagem de laboratório, dos campos da engenharia química e do petróleo, escrito em inglês por alemães. Como o equipamento era alemão, a empresa brasileira exigiu manuais em inglês, mais fáceis de serem entendidos aqui. Neste caso, a má qualidade do texto me levou a ir ao local onde o equipamento estava, passar toda uma manhã não remunerada conversando com a pessoa encarregada, observando o funcionamento, para poder entender o que o texto deturpara. As preposições mal empregadas, os erros de concordância, de uso dos verbos, simplesmente, faziam-me pensar que os fluidos tomavam um caminho quando, na verdade, tomavam outro. Que passavam do vaso A para o B ou que o fluido X transformava-se em Y, quando a realidade era o oposto. Por falar de inglês escrito por pessoas de outras línguas, é preciso ver o inglês dos japoneses e traduzir um manual produzido no Japão para entender a dificuldade do tradutor, principalmente se não conhecer o assunto técnico particular. Há alguns anos havia certa indústria pesada japonesa aqui instalada e traduzi muitos manuais produzidos no Japão, escritos em inglês. Infelizmente, do ponto de vista técnico e do emprego, a situação econômica forçou a sua retirada do país.
Outro caso, é quando o trabalho de escrever manuais é dado a pessoas de menor qualificação, pois os equipamentos irão para um país do terceiro mundo, onde, pensam os gringos, o nível técnico é inferior. Neste caso, considero que há má-fé, pura e simplesmente. Não no papel de tradutor, mas no de engenheiro, deparei-me com manuais de complicados equipamentos navais escritos por pessoa de baixa qualificação, com o agravante que vinham para a filial brasileira, onde eu trabalhava. Ia à matriz com freqüência e pude conhecer os “escritores” e os chefes que lhes davam a tarefa de escrever para o Brasil. Foi necessário ir à alta direção da matriz, criando mal-estar e conflitos, para mudar a atitude preconceituosa de entregar a tarefa a pessoas menos qualificadas em razão da exportação “para o Brasil”. No caso em questão, a preocupação era bem entender os equipamentos para passar o conhecimento aos brasileiros encarregados da fabricação e operação.
Uma outra situação encontrada é quando os autores não agem de má-fé mas, simplesmente, são ignorantes. Os manuais ou documentos são escritos para consumo da própria empresa estrangeira mas, de uma forma ou de outra, vêm a ser necessários no Brasil. Foi o caso de quando decidimos, já em outra empresa, fabricar no país certos equipamentos importados regularmente para uso em petróleo. O problema foi encontrado tanto em especificações técnicas e procedimentos de fabricação quanto nos manuais de operação para o usuário final, que também teríamos de entregar, traduzidos, com os equipamentos nacionalizados. Encarregado do projeto de nacionalizar aqueles equipamentos, mal conseguia entender os textos. Indo à matriz, descobri a razão. O trabalho de escrever tudo aquilo era dado, para consumo deles próprios, a antigos peões do petróleo, perto da aposentadoria e encostados numa escrivaninha, que conheciam tudo na prática mas nada sabiam da sua própria língua. Escreviam numa linguagem cheia de impropriedades e erros graves. Não conseguiam colocar no papel o que sabiam fazer após anos no campo. O pessoal da fábrica entendia e tudo permanecia como estava. A fabricação decifrava os documentos por que os autores estavam dentro da fábrica, podendo esclarecer verbalmente. Com o tempo, aquilo virou rotina e não restavam dúvidas.
A origem deste último caso é curiosa: o proprietário da empresa inventou certos equipamentos que reduziram em muito os custos de completação de poços. Era peão de perfuração e passou a fabricar o seu invento nas máquinas, ele próprio, ensinando aos primeiros colaboradores “em cima da perna”. Fundou uma empresa às custas da sua idéia e ficou rico, com uma multinacional nas mãos. A diretoria da empresa era formada por antigos peões do petróleo, como não podia deixar de ser.
Quando chegou a hora de profissionalizar a empresa e atingir o mercado externo, não perceberam a necessidade de bons textos técnicos; faltava-lhes até mesmo a capacidade de percepção. Escrever era coisa irrelevante, diante da prioridade de fabricar e vender, não cabendo a sofisticação de documentos bem escritos, como hoje se concebe ser primordial numa indústria moderna. De repente, aquele material precisava ser muito bem compreendido por estrangeiros, que não sabiam decifrar as especificações e instruções. O problema foi contornado pelo conhecimento adquirido na fábrica dos Estados Unidos e transmitido ao nosso pessoal.
Finalmente, não custa nada lembrar que, do mesmo modo que há brasileiros que escrevem muito mal o português, o mesmo ocorre com todos os povos. E, quando alguém de bom nível, que é o caso dos tradutores, se dispõe a aprender uma língua para dela tirar proveito de trabalho, quase sempre o faz com afinco e aprende o melhor, busca os mais altos padrões, estuda o melhor da literatura estrangeira. Pronúncia à parte, em geral conhece aquela língua estrangeira melhor do que um estrangeiro de nível educacional médio para o qual ela é materna.
-------------- (setembro/2002) Alexandre Melo é tradutor credenciado pela ABRATES, engenheiro e advogado. É também o Primeiro-Secretário da ABRATES.
Em um texto de qualquer extensão, seja técnico ou literário, uma determinada palavra pode aparecer diversas vezes, sendo que não necessariamente com o mesmo significado. Várias ocorrências podem possuir um equivalente textual específico em LM. Novamente, volta-se à questão da semântica, onde tais palavras podem ser afetadas por fatores contextuais.
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