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 Artigo:  Qualidade na Tradução de Cinema no Brasil Assunto/autor:  Monika Pecegueiro do Amaral
Qualidade na Tradução de Cinema no Brasil

Há dez anos tenho o privilégio e o prazer de traduzir profissionalmente filmes lançados em versões legendadas ou dubladas, em português ou em idiomas estrangeiros, para exibição nos circuitos cinematográficos e em festivais, no Brasil e no resto do mundo.

Convidada à mesa-redonda, “Mercado Brasileiro de Tradução de Filmes para Cinema e Vídeo”, realizada no dia 04 de julho de 2001, na PUC-Rio, no ciclo do Departamento de Letras/Tradução e AET/RJ, “Mercado de trabalho de tradução: mitos e realidades”, narrei ao público mais uma história de sucesso do cinema.

Só que desta vez, não a de mais um clássico inesquecível ou um de seus grandes êxitos de bilheteria, e sim a da qualidade impecável do roteiro traduzido como resultante do trabalho harmonioso em equipe que é preciso haver entre a distribuidora e seus tradutores. Citei o dever e o compromisso ético que tradutores, distribuidores, gerentes de produção, revisores, laboratórios, etc., todos os envolvidos no processo em todos os seus vários níveis, precisam ter com os mais altos padrões de qualidade na tradução e legendagem dos filmes. Compromisso que, no caso da Lumière Latin America, representada à mesa pelo distribuidor Bruno Wainer, a distribuidora sempre teve com seus títulos – desde a época em que a trabalhava com o pioneiro e genial, S. da Rocha Spiegel, a quem tive o prazer de conhecer pessoalmente – e ainda hoje tem comigo e, entre outras, com a também tradutora e intérprete sócia da ABRATES, Heloisa Martins-Costa, minha grande amiga e ótima colega no mercado de tradução de cinema.

Destaco como fatores do sucesso da parceria TRADUTOR/ DISTRIBUIDOR:

1. A opção da distribuidora por títulos de alta qualidade; e o cuidado com a seleção de tradutores profissionais confiáveis e capacitados.
2. Aos tradutores, são fornecidos todos os elementos básicos para a criação de um roteiro traduzido para legendagem: uma sessão de exibição do filme em película, com o som original, em seu ambiente apropriado, isto é, no escurinho da cabine de projeção do distribuidor; o roteiro na língua original, pietado em feet & frames, nossos “faróis” no alto-mar de nossas escolhas; e uma versão do título em vídeo ou DVD.
3. Dispomos, então, dos recursos que nos permitem acesso simultâneo à obra escrita e às bandas de áudio e vídeo, e do tempo necessário para: a) a pesquisa, contextualização, investigação e pré-produção dos nossos roteiros traduzidos; b) a prática do cotejo incessante entre nosso roteiro preliminar do filme e sua imagem e áudio, crucial na etapa de correção de omissões, falhas e recortes de cenas, nos freqüentes casos de remontagens do original; c) a adequação estilística da tradução à riqueza de informações extralingüísticas presentes nos outros recursos semióticos da obra (imagens, encenação, vestuários, etc.), também disponíveis somente nas telonas ou telinhas; d) e a adequação gráfica às técnicas de ficção e, mais especificamente, às regras de editoração e legendagem para o cinema.
4. Todo tradutor de cinema precisa ser um bom contador de histórias, um bom ficcionista. Trabalhando como intérprete de grandes cineastas contemporâneos como John Sayles, Anthony Minghella e Don Hahn, não coincidentemente ouvi de todos eles que os três principais fatores determinantes para o sucesso de um filme são: “História, história e história.” Precisamos ainda ter a agilidade criativa necessária para sermos surpreendentemente hilários ou mordazes no momento em que estamos a traduzir comédias e farsas, compositores líricos, ao traduzirmos musicais, ou especialistas em dramaturgia em inglês arcaico, ao se traduzir Shakespeare. Traduzimos, primordialmente, diálogos? Sim, mas há um “texto escrito” que precisa ser “lido”, para que o espectador que não domina a língua estrangeira na qual a obra original foi produzida possa entendê-la 100%. Como o autor Henrik Gottlieb bem aponta em um de seus artigos (1994), a legendagem de mídia é um tipo de “tradução diagonal”, na qual discursos FALADOS são LIDOS em outra língua pelos espectadores. A tradução como uma transposição de uma modalidade audiovisual para uma modalidade escrita ficcional é uma especificidade da tradução de filmes, da qual o bom tradutor/roteirista está sempre consciente.
5. Por fim, um saudável feedback de pós-produção, no qual são discutidas questões institucionais e lingüísticas, como, por exemplo, sugestões da distribuidora para a adequação do produto final ao público espectador enquadrado na classificação etária do filme; ou a escolha dos nomes dos personagens e dos títulos de canções do filme em sinergia com sua distribuição mundial, um caso muito freqüente nos lançamentos Disney. São argumentações, em geral, muito lúdicas, e onde o tradutor deve ter a garantia da palavra final em opções mais controversas, porém facilmente justificáveis, segundo os inúmeros critérios que orientam nossas decisões. Após a aprovação da primeira cópia-guia legendada pelo laboratório para as devidas correções finais, dessa matriz são produzidas as dezenas, ou centenas, de cópias do filme que abastecerão o circuito exibidor.

A gratificante cooperação plena entre todos os termos do trinômio tradutor-distribuidor-laboratório e também a confiança e o respeito nas suas relações profissionais são vitais para que as obras-primas mágicas dos cineastas que seguiram os passos dos irmãos multimídia, Auguste & Louis Lumière, tenham traduções em línguas estrangeiras nada menos do que 120% corretas, artística e tecnicamente impecáveis.

“The subtitler must possess the musical ears of an interpreter,
the stylistic sensitivity of a literary translator,
the visual acuteness of a film cutter and
the esthetic sense of a book designer.”
- Henrik Gottlieb


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(julho/2001)
Monika Pecegueiro do Amaral, tradutora e intérprete de conferência, tem 10 anos de experiência em tradução de filmes para o cinema. Bacharel em Letras/Tradução, pela PUC-Rio, tem mestrado em Literatura Luso-Brasileira pela Universidade da Califórnia, Santa Bárbara/USA, é professora de Tradução de Cinema da Pós-Graduação Lato Sensu em Tradução da PUC-Rio, membro do SINTRA, da AET/RJ, da ATA/USA e sócia da ABRATES.
monikapa@iis.com.br


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